Era segunda-feira, a aula era de redação — as ótimas aulas de redação, que me dão 1h30m de sono para agüentar as outras aulas. Entretanto, eu não estou para me vangloriar de algo desvangloriável, o que quer dizer que algo me chamou a atenção.
O professor, como sempre, projetou a aula no quadro e falou durante um bom tempo e, entre uma minha virada de cabeça para o outro lado e uma troca de posição das pernas, ele falava de quatro citações, que a partir delas deveríamos compor nossas redações — não bem assim, mas quase isso. As citações pareciam típicas do dia-a-dia e não possuíam nada de diferente do que se fala da população jovem. Porém, elas não eram atuais:
"Nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos, hoje, são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus." Sócrates (470-399 a.C.)
"Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível." Hesíodo (720 a.C.)
"Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe." Um sacerdote do ano 2000 a.C.
"Essa juventude está estragada até o fundo do coração… Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura." Escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilônia (atual Bagdá) e tem mais de 4.000 anos de existência.
Podem sempre reclamar do jovem — papel dos mais velhos, assim como o nosso reclamar deles –, mas há um ciclo: os jovens ficam velhos e fazem escolhas assim como os velhos já as fizeram. Aquela velha história cíclica, que achei legal compartilhar.
O Brasil sempre comandado, dirigido, manipulado e tudo mais pela nossa elite fodassa — no sentido pejorativo e pornográfico da palavra –, logo o máximo de ascensão que um brasileiro pode querer é ser parte da elite. Quem compõe a elite? Abre a Caras. Eh, a Caras e outras várias do gênero por aí.
Percebe-se, então, que as novelas, que tentam imitar a vida, colocam lá a elite fodassa sendo representada pelas socialites e ricaços que fazem da vida nada mais nada menos que gastar e, obviamente, causar intrigas pela face da Terra para dar audiência. Por conseguinte, são os caras que a população quer ser, bem parecidos até com a nobreza parasitária da França antes da Revolução. Gastar, festejar e fodas, meu – porque o que é importante é o cachorro da Vera Loyola (Vera Loyola inspirou Letícia Spiller no personagem Eva, em Duas Caras).
É interessante quando se faz uma análise de, por exemplo, o que retratam nas séries americanas – de fácil acesso pela internet e TV à cabo – que tratam de pessoas, por vezes da elite, que possuem vida, trabalham e identificam a nação. O que mostra, por meio dessas séries, a vontade de ascender não só socialmente, mas intelectualmente, desejo de crescer como pessoa, e de não ser o Zé que não desiste nunca.
Creio, portanto, que este texto se autoconclui sem eu precisar dizer o período doído que eu pensava em colocar, né?
A tema de abertura de Gre'ys Anatomy é bem sugestivo para o conteúdo do série que traz reviravoltas na vida de Meredith Grey, a protagonista sempre problemática e enigmática da série, e de seus amigos, tão ou às vezes mais problemáticos que a própria Meredith.
Meredith é uma residente no hospital Seattle Grace que se envolve com um supervisor sem consciência de que esse o é, assim como sua amiga Christina que também se envolve com outro atendente. Dois romances que não vingam, por complicações diversas, como o surgimento da esposa de Derek — o ex, futuro e, de novo, ex namorado de Grey –, ou o medo de comprometimento de Christina, ou os problemas eventuais que acontecem na vida das duas.
Foi-se o dia em que eu tinha lá meus 10 anos e fui com minha mãe à dentista fazer limpeza dos dentes e ela, a dentista, dá-me a notícia que eu deveria usar aparelho
ortodôntico. Como toda criança de 10 anos, é óbvio que relutei, esperneei, chorei, emburrei e xinguei, não da frente da dentista, até a qüinquagésima nona geração que pode existir dela. Mas fui ao ortodontista — como se eu tivesse alguma escolha — e coloquei a merda do aparelho durante aquela conversa constragedora que você tem com seu ortodontista na primeira consulta, na qual ele lhe pergunta até "o que você vai ser quando crescer"e você responde aquela profissão pomposa, "engenheiro", porque você desconhece a praga da matemática-química-física.
No início do tratamento, aliado ao fato de você se sentir estranho, todo mundo lhe olha como se tivesse colocado um ET na boca, faltando só enfiar o dedo para ver se o metal reluzente (porque brilha, principalmente quando se há flash de máquina fotográfica) pregado nos seus dentes é verdadeiro. Entretando, depois de algumas séries, lá pela 6ª, é raro os que não usam aparelho. Tanto que acidentes, como levar bolada na cara e sair com a boca toda cortada e jorrando sangue, é algo normal no colégio.
Contudo, eis o dia que tudo acaba, o dia em que o ortodontista o prepara e diz que na próxima consulta você tirará o aparelho. Você vai embora com seu sorriso metálico beirando as orelhas de felicidade. Volta dali a um mês, tira o aparelho e, até que enfim, exibe o sorriso colgate.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Um dia, em uma consulta de rotina, sua dentista informa que você precisa retirar os sisos, porque se não todo o seu árduo esforço para suportar os aparelhos ortdônticos nada valeram. Eita! E, vai você de novo, no ortodontista que vai lhe cobrar o sonho do carro próprio pra retirar os sisos. E, quando sai de consultório, após algumas horas, descobre como é que o Fofão realmente se sentia quando saía na rua. Tudo pelo sonho do sorriso das propagandas de pasta dental.



